O edifício pode ser eficiente e ainda emitir demais pela climatização
Um edifício pode consumir pouca energia e ainda apresentar um impacto climático relevante. Isso acontece quando o sistema de climatização utiliza fluidos com elevado potencial de aquecimento global e não controla adequadamente os vazamentos.
As emissões de gases refrigerantes em edifícios são diferentes das emissões relacionadas ao consumo de eletricidade. Elas podem ocorrer diretamente quando o fluido escapa durante a operação, manutenção ou retirada dos equipamentos.
Por isso, avaliar apenas a eficiência energética não oferece uma visão completa sobre a descarbonização do ativo.
Eficiência e impacto climático não são sinônimos
Equipamentos eficientes exigem menos energia para fornecer o mesmo serviço. Essa característica pode reduzir custos operacionais e emissões associadas à eletricidade.
Entretanto, o desempenho climático também depende do tipo e da quantidade de fluido presente no sistema.
Alguns hidrofluorcarbonetos, conhecidos como HFCs, possuem elevado potencial de aquecimento global. Quando liberados na atmosfera, eles contribuem diretamente para a mudança do clima.
Assim, um equipamento eficiente pode continuar associado a emissões relevantes caso utilize um fluido de alto impacto e apresente vazamentos ao longo da vida útil.
A análise precisa combinar consumo de energia, escolha do refrigerante, carga instalada e controle operacional.
O vazamento precisa ser acompanhado
Nem sempre os vazamentos são identificados imediatamente. Em alguns casos, a perda aparece apenas quando o equipamento deixa de entregar a capacidade esperada e precisa receber uma nova carga.
Esse procedimento pode restaurar o funcionamento, mas não resolve a causa do problema. Se a origem do vazamento não for corrigida, o fluido poderá escapar novamente.
Por isso, a quantidade utilizada nas recargas deve ser registrada. O histórico ajuda a identificar equipamentos com falhas recorrentes e apoia decisões de manutenção ou substituição.
O controle dos gases refrigerantes em edifícios deve reunir
- identificação dos equipamentos;
- tipo de refrigerante utilizado;
- quantidade de fluido em cada sistema;
- datas e volumes de recarga;
- registros de inspeção e manutenção;
- causas encontradas para os vazamentos;
- recuperação e destinação do fluido retirado.
Sem esse inventário, a organização não consegue estimar sua exposição nem definir prioridades.
A manutenção influencia o resultado
A escolha de um refrigerante com menor potencial de aquecimento global é importante. No entanto, ela não elimina a necessidade de manutenção.
Conexões, válvulas, tubulações e componentes podem apresentar falhas. A instalação inadequada também aumenta a possibilidade de perda do fluido.
Por isso, a qualificação das equipes é decisiva. Técnicos precisam conhecer as características do sistema, os requisitos de segurança e os procedimentos de recuperação.
A substituição do refrigerante também não deve acontecer sem uma avaliação de compatibilidade. Pressão, inflamabilidade, desempenho energético e condições de operação podem mudar de uma alternativa para outra.
A decisão deve envolver projetistas, fabricantes, operadores e profissionais habilitados.
Novos projetos podem evitar dependências futuras
Nos novos edifícios, a estratégia começa pela especificação dos sistemas.
A equipe pode comparar alternativas com base na eficiência, no potencial de aquecimento global, na carga de refrigerante, na segurança e na disponibilidade de assistência técnica.
Também pode projetar acessos adequados para manutenção e prever meios de monitorar o desempenho.
Esse processo reduz o risco de instalar uma solução eficiente no curto prazo, mas incompatível com a trajetória de redução dos HFCs.
A avaliação deve alcançar também os equipamentos de menor porte. Sistemas auxiliares, câmaras refrigeradas e aparelhos independentes podem utilizar fluidos refrigerantes e fazer parte da exposição total do imóvel.
Edifícios existentes precisam de um plano de transição
Em ativos existentes, a troca imediata de todos os equipamentos nem sempre é técnica ou financeiramente adequada.
A primeira etapa deve ser conhecer a instalação. Depois disso, a organização pode classificar os sistemas de acordo com idade, condição, tipo de fluido, histórico de vazamentos e importância operacional.
Equipamentos com falhas frequentes podem exigir prioridade. Sistemas estáveis podem permanecer em uso com manutenção e monitoramento, desde que atendam às exigências aplicáveis.
O diagnóstico de edificações existentes ajuda a compreender quais problemas pertencem ao equipamento, à envoltória, ao controle da climatização ou à combinação desses fatores.
Com essa leitura, a substituição pode ser coordenada com reformas, término da vida útil e planejamento de capital.
O objetivo não é apenas trocar equipamentos. É reduzir gradualmente a exposição a fluidos de alto impacto sem comprometer segurança, conforto e continuidade operacional.
O Brasil possui metas para reduzir o consumo de HFCs
O Programa Brasileiro de Redução do Consumo dos HFCs está relacionado aos compromissos assumidos pelo país no âmbito da Emenda de Kigali.
Segundo o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, o Brasil tem como metas reduzir em 10% o consumo de HFCs até 2029 e alcançar uma redução de 80% até 2045.
Esses percentuais tratam da redução do consumo nacional das substâncias abrangidas. Eles não significam a proibição imediata de todos os equipamentos existentes.
A transição tende a influenciar disponibilidade, especificações, manutenção e decisões de investimento. Portanto, proprietários e operadores precisam acompanhar o tema antes que a substituição se torne urgente.
O ciclo de vida completo precisa ser considerado
A gestão não termina quando o equipamento é retirado de operação.
O fluido remanescente precisa ser recuperado e destinado corretamente. Caso seja liberado durante a desmontagem, parte dos ganhos obtidos com a eficiência pode ser perdida.
O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente destaca que a gestão de refrigerantes precisa alcançar todo o ciclo de vida, desde produção e manutenção até recuperação e destruição.
Contratos de manutenção e descarte devem deixar essas responsabilidades claras. Registros e comprovantes também ajudam a preservar a rastreabilidade.
O LEED v5 amplia o controle
O LEED v5 dedica atenção específica à gestão dos refrigerantes.
Na modalidade para edifícios existentes, o requisito inclui inventário dos equipamentos, identificação dos fluidos, potencial de aquecimento global, quantidade instalada e acompanhamento de vazamentos e recargas.
Essas mudanças se conectam à agenda mais ampla de descarbonização do sistema. O conteúdo da StraubJunqueira sobre a transição para o LEED v5 mostra como carbono, operação, resiliência e desempenho ganharam mais espaço na nova versão.
Para novos empreendimentos, a especificação pode evitar dependências futuras. Nos edifícios existentes, inventário, manutenção e plano de substituição ajudam a organizar a transição.
Descarbonizar exige olhar além da conta de energia
A eficiência energética continua sendo essencial. Porém, ela não representa sozinha o impacto da climatização.
Os gases refrigerantes em edifícios precisam entrar nos inventários, nos contratos de manutenção e nas decisões de substituição.
Quando a organização conhece seus equipamentos e registra os vazamentos, consegue priorizar investimentos com maior precisão. Também reduz o risco de trocar uma solução problemática por outra inadequada.
Essa visão complementa o debate sobre descarbonização da construção civil, que precisa alcançar materiais, sistemas, operação e manutenção.
A StraubJunqueira apoia proprietários, operadores e equipes de projeto na avaliação de sistemas prediais e estratégias de descarbonização. Entre em contato com a equipe para analisar os impactos da climatização no seu empreendimento.