A energia renovável basta para tornar um data center sustentável?
A contratação de energia renovável é importante para reduzir as emissões associadas à operação. Porém, ela não basta para classificar todo o empreendimento como um data center sustentável.
A análise também precisa considerar a demanda total de energia, a infraestrutura elétrica, o sistema de climatização, o uso de água, a localização e a resiliência operacional.
Além disso, decisões sobre materiais, gases refrigerantes, geradores de emergência e expansão futura interferem no desempenho ambiental do ativo.
O crescimento aumenta a responsabilidade
O interesse por novos data centers aumentou no Brasil.
Segundo a Empresa de Pesquisa Energética, o montante de projetos em processo no Ministério de Minas e Energia passou de 19,8 GW, em setembro de 2025, para 26,2 GW, em novembro do mesmo ano.
Esses números não representam capacidade instalada nem confirmam que todos os projetos serão executados. A concretização depende de fatores como infraestrutura de transmissão, viabilidade financeira e obtenção das autorizações necessárias.
Ainda assim, o volume mostra a dimensão do desafio. Grandes cargas concentradas podem exigir investimentos relevantes e influenciar o planejamento energético regional.
Avaliar apenas a origem renovável da eletricidade deixa parte importante desse impacto fora da análise.
A fonte da eletricidade é apenas uma dimensão
Um data center pode contratar energia de origem renovável e continuar operando com consumo elevado ou ineficiente.
Por isso, é necessário observar quanta energia chega ao empreendimento e qual parcela atende aos equipamentos de tecnologia da informação. O restante alimenta refrigeração, ventilação, iluminação, sistemas elétricos e outros recursos de apoio.
Quanto maior a energia necessária para manter essa infraestrutura, maior será a pressão sobre a rede e sobre a capacidade disponível.
A forma de contratação também deve ser analisada com precisão. Certificados de energia, contratos de fornecimento e geração no próprio local possuem características diferentes.
Nenhuma dessas alternativas elimina a necessidade de reduzir o consumo, melhorar a eficiência e administrar os momentos de maior demanda.
A localização interfere no desempenho
A escolha do terreno influencia acesso à rede elétrica, disponibilidade de telecomunicações, clima, segurança hídrica e exposição a riscos físicos.
Regiões com temperaturas mais amenas podem oferecer condições favoráveis para determinadas estratégias de resfriamento. Contudo, cada solução depende das exigências técnicas da operação.
A disponibilidade de água também precisa ser avaliada no contexto local. Um sistema adequado para uma região pode aumentar a pressão sobre recursos hídricos em outra.
Além disso, enchentes, ondas de calor, incêndios, tempestades e interrupções de energia devem fazer parte da análise de resiliência.
A StraubJunqueira já discutiu como o risco climático pode afetar o desempenho e a competitividade de ativos imobiliários. Em data centers, essa avaliação se torna ainda mais relevante devido à necessidade de continuidade operacional.
Água e energia precisam ser avaliadas juntas
Nem todos os data centers utilizam água da mesma forma. O impacto depende do sistema de climatização, das condições climáticas e da estratégia operacional.
Algumas soluções reduzem o consumo direto de água, mas podem exigir mais energia. Outras diminuem a demanda elétrica em certas condições, mas aumentam a dependência hídrica.
Por isso, água e energia não devem ser avaliadas separadamente. A equipe precisa estudar as compensações entre as alternativas e considerar a disponibilidade dos recursos ao longo da vida útil.
Também é necessário definir medição, metas e procedimentos operacionais. Sem dados consistentes, o empreendimento não consegue identificar desvios nem comparar seu desempenho.
Resiliência também produz impactos
Data centers precisam manter a continuidade de serviços críticos. Por esse motivo, costumam utilizar sistemas de redundância, armazenamento de energia e geração de emergência.
Esses recursos são importantes, mas também possuem impactos. Geradores exigem combustível, manutenção e testes periódicos. Baterias envolvem materiais, segurança, substituição e destinação ao final da vida útil.
A sustentabilidade depende de uma estratégia que preserve a confiabilidade e, ao mesmo tempo, reduza emissões e riscos locais.
Nesse contexto, a equipe pode avaliar alternativas tecnológicas, dimensionamento, frequência de testes e possibilidades de integração com a rede. Cada escolha, no entanto, deve respeitar os requisitos de segurança e disponibilidade da operação.
Materiais e refrigerantes também entram na conta
O impacto do empreendimento começa antes do início da operação. Estruturas, envoltórias, equipamentos elétricos e instalações possuem emissões associadas à extração, fabricação, transporte e construção.
Como data centers utilizam grande quantidade de equipamentos e podem passar por ampliações frequentes, a flexibilidade do projeto também importa.
Soluções que facilitam substituições e evitam intervenções desnecessárias podem reduzir impactos futuros. Essa visão de ciclo de vida também aparece no debate sobre a descarbonização da construção civil.
Os sistemas de climatização acrescentam outro ponto de atenção. Eficiência energética, tipo de fluido refrigerante, controle de vazamentos e manutenção precisam ser analisados em conjunto.
A energia renovável reduz uma parcela das emissões operacionais. Porém, ela não elimina as emissões incorporadas nos materiais nem aquelas causadas por vazamentos de refrigerantes.
A transparência está ganhando importância
Em 21 de setembro de 2026, a Comissão Europeia apresentou uma proposta de classificação para data centers com foco em transparência sobre uso de energia e água.
A proposta também considera eficiência, energia renovável, reaproveitamento de calor e integração ao sistema energético. Os primeiros rótulos estão previstos para 2027.
A iniciativa pertence ao contexto europeu e não deve ser apresentada como regra brasileira. Mesmo assim, ela demonstra uma tendência internacional de comparação mais ampla do desempenho desses empreendimentos.
Para investidores e operadores, essa mudança aumenta a importância de dados comparáveis, limites definidos e metodologias transparentes.
Certificações podem organizar uma visão integrada
Os sistemas de certificação podem estruturar decisões sobre energia, água, localização, materiais, qualidade ambiental e resiliência.
O USGBC mantém uma orientação específica para a aplicação do LEED em data centers. O documento diferencia novas construções, interiores, edifícios existentes e projetos com entrega por fases.
Isso é importante porque um data center completo, uma área de colocation e uma instalação existente podem exigir caminhos distintos.
A certificação, contudo, não substitui a engenharia nem a gestão operacional. Ela funciona melhor quando os objetivos são definidos desde as primeiras decisões de implantação.
Sustentabilidade precisa alcançar toda a operação
A energia renovável é parte importante de um data center sustentável. Entretanto, ela não basta para comprovar o desempenho de todo o empreendimento.
Uma análise consistente deve considerar consumo absoluto, eficiência, água, localização, materiais, climatização, riscos físicos, redundância e qualidade das informações divulgadas.
Quanto mais cedo esses fatores entrarem no projeto, maior será a possibilidade de reduzir conflitos, proteger o investimento e evitar soluções isoladas.
A StraubJunqueira apoia empreendimentos de alta complexidade na estruturação de estratégias ambientais e processos de certificação. Fale com a StraubJunqueira para avaliar o projeto de forma integrada.