IFRS S1 e S2: o que muda com o recuo da obrigatoriedade
O recuo da obrigatoriedade dos reportes de sustentabilidade no Brasil não deve ser lido como o fim da agenda.
A decisão da CVM de retirar a exigência futura de divulgação das informações financeiras relacionadas à sustentabilidade mudou o ritmo da adoção dos padrões IFRS S1 e S2 para companhias abertas. Mas não mudou o contexto em que empresas, investidores, bancos e cadeias globais estão operando.
Na prática, o mercado ganhou mais tempo. Mas tempo não significa licença para parar.
A sustentabilidade pode ter perdido urgência regulatória neste momento, mas segue cada vez mais ligada a risco, financiamento, exportações, governança, reputação e valor de longo prazo.
Para o mercado imobiliário, essa discussão também importa. Ativos, empreendimentos e portfólios passam a ser avaliados não apenas pela entrega física, mas pela capacidade de demonstrar desempenho, resiliência, eficiência, risco climático e qualidade da gestão ao longo do tempo.
O que aconteceu com a obrigatoriedade do IFRS S1 e S2
A Resolução CVM 193 havia colocado o Brasil em posição de destaque ao estabelecer uma trajetória para adoção dos padrões internacionais de divulgação de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade, com base nas normas do ISSB.
O movimento era importante porque buscava aproximar os reportes de sustentabilidade do rigor, da comparabilidade e da confiabilidade esperados das informações financeiras tradicionais.
Com a Resolução CVM 244, esse cenário mudou.
A obrigatoriedade futura foi retirada. A divulgação passa a depender da decisão de cada companhia. Quem optar por reportar deverá seguir os padrões do CBPS e do ISSB, mantendo compromisso de continuidade por pelo menos três exercícios sociais consecutivos. Quem decidir não divulgar deverá comunicar essa escolha ao mercado, no modelo “pratique ou explique”.
É uma mudança relevante. Mas ela não elimina a pergunta central: a empresa está preparada para demonstrar como sustentabilidade, clima e desempenho afetam seu negócio?
A agenda ficou voluntária, mas não ficou irrelevante
Existe uma diferença importante entre não ser obrigado e não ser cobrado. A retirada da obrigatoriedade pode reduzir a pressão formal sobre algumas empresas. Mas a cobrança do mercado não depende apenas da regulação local.
Investidores, bancos, fundos, seguradoras, clientes corporativos, cadeias internacionais e parceiros comerciais continuam olhando para risco climático, governança, emissões, adaptação, eficiência e transparência.
Em muitos casos, essas informações já influenciam custo de capital, acesso a financiamento, reputação, participação em cadeias globais e percepção de risco.
Por isso, tratar o recuo da CVM como uma pausa definitiva seria uma leitura curta.
O que muda é o tipo de pressão. Antes, havia uma obrigação regulatória em construção. Agora, a decisão passa a ser uma escolha de governança. E escolhas de governança também comunicam muito ao mercado.
O mundo segue em outra direção
Um ponto importante da discussão é que o Brasil não opera isolado.
Enquanto a obrigatoriedade local foi retirada, diversos mercados avançam em direção a maior transparência em sustentabilidade. Países como Japão, Reino Unido, Canadá, Singapura, México, Austrália, Chile, Coreia do Sul e China vêm caminhando na adoção formal dos padrões S1 e S2.
Na Europa, a CSRD já estabelece uma régua robusta para reporte corporativo de sustentabilidade, exigindo informações mais detalhadas sobre impactos ambientais e sociais.
E há um ponto especialmente sensível para empresas brasileiras: a cadeia de fornecedores.
Com a ampliação das exigências sobre emissões de escopo 3, a pressão não fica restrita às grandes empresas europeias. Ela tende a chegar aos fornecedores, parceiros e empresas que participam de cadeias globais.
Isso significa que uma empresa brasileira pode não ser obrigada pela CVM a reportar agora, mas ainda assim ser cobrada por um cliente internacional, por um investidor, por um banco ou por uma cadeia de exportação.
A ausência de obrigação local não elimina a demanda externa por dados.
Exportações, capital internacional e comparabilidade
Para empresas brasileiras que exportam, buscam capital fora do país ou participam de cadeias globais, a transparência em sustentabilidade tende a se tornar um fator competitivo.
Mercados mais regulados não querem apenas declarações genéricas. Eles precisam de dados comparáveis, indicadores consistentes e informações que permitam avaliar risco.
Essa é uma mudança relevante. Sustentabilidade deixa de ser apenas uma narrativa institucional e passa a fazer parte da linguagem econômica das empresas.
Quem não consegue demonstrar seus impactos, riscos, metas e estratégias pode enfrentar mais dificuldade para responder a compradores, financiadores, investidores e parceiros.
No mercado imobiliário, a lógica é parecida. Ativos e portfólios também começam a ser lidos por critérios mais amplos: exposição a riscos climáticos, eficiência operacional, qualidade ambiental, resiliência, emissões, consumo de recursos, documentação e capacidade de comprovar desempenho.
Não basta afirmar que um empreendimento é sustentável. É preciso demonstrar.
O risco do greenwashing por omissão
A discussão sobre o recuo da CVM também levanta um ponto delicado: o risco de que a autorregulação produza informações insuficientes.
O problema nem sempre está em mentir. Muitas vezes, está em não entregar dados suficientes para que o mercado consiga verificar se as promessas foram cumpridas. Esse é o chamado greenwashing por omissão.
A empresa comunica compromisso, usa linguagem alinhada à sustentabilidade, apresenta intenção, mas não oferece evidências consistentes sobre resultados, indicadores, impactos ou evolução.
Esse risco é relevante porque fragiliza a confiança do mercado. Sem dados, a sustentabilidade vira discurso. Com dados, ela começa a ser gestão. E é justamente essa passagem que diferencia empresas preparadas de empresas apenas reativas.
O impacto para o mercado imobiliário
À primeira vista, IFRS S1 e S2 parecem uma agenda distante do mercado imobiliário, especialmente quando a discussão se concentra em companhias abertas. Mas essa leitura é limitada.
O mercado imobiliário está cada vez mais conectado a investidores institucionais, fundos, financiamento, governança, risco climático, operação, certificações sustentáveis e demanda de ocupantes.
Empreendimentos corporativos, logísticos, residenciais de alto padrão, hotéis, hospitais e ativos de uso misto tendem a ser avaliados por uma régua mais ampla do que localização, arquitetura e padrão construtivo.
Entram na conta temas como eficiência energética, consumo de água, gestão de resíduos, conforto ambiental, qualidade interna dos espaços, adaptação climática, redução de emissões e desempenho ao longo da operação.
Tudo isso pode influenciar valor percebido, liquidez, ocupação, reputação e custo operacional.
Por isso, mesmo quando a obrigação regulatória não incide diretamente sobre um projeto específico, a lógica de transparência e evidência já começa a chegar ao setor.
Certificações sustentáveis ajudam a organizar evidências
Nesse cenário, as certificações sustentáveis ganham ainda mais importância.
Elas não substituem o reporte financeiro de sustentabilidade, mas ajudam a organizar critérios, documentação, metas e evidências sobre o desempenho dos ativos.
Dependendo da certificação e da tipologia do empreendimento, o processo pode envolver energia, água, materiais, resíduos, qualidade ambiental interna, saúde, bem-estar, operação, inovação, mobilidade e gestão.
Essa estrutura ajuda a transformar sustentabilidade em algo mais verificável.
Para incorporadoras, construtoras, proprietários e gestores de ativos, a certificação pode apoiar uma leitura mais consistente do empreendimento, ajudando a responder perguntas que o mercado tende a fazer com mais frequência:
- quais riscos foram considerados?
- quais dados sustentam as decisões do projeto?
- como o ativo performa na operação?
- quais evidências comprovam eficiência, conforto e resiliência?
- como a sustentabilidade se conecta ao valor de longo prazo?
Essas perguntas não desaparecem porque a obrigação regulatória foi revista. Pelo contrário. Elas tendem a ficar mais relevantes à medida que investidores e cadeias globais exigem informações mais comparáveis.
O mercado ganhou tempo. Não ganhou motivo para esperar
O recuo da obrigatoriedade do IFRS S1 e S2 pode ser interpretado de duas formas.
Para algumas empresas, será um alívio operacional. Para outras, pode ser uma oportunidade de construir estrutura com mais maturidade, sem a pressão de publicar relatórios apressados, pouco consistentes ou apenas defensivos.
A diferença estará na forma como esse tempo será usado.
Quem tratar a mudança como desculpa para adiar pode chegar despreparado quando a pressão voltar, seja por regulação, mercado, financiamento ou cadeia internacional.
Quem usar esse intervalo para organizar dados, rever processos, estruturar governança e qualificar ativos tende a sair na frente.
No fim, a questão não é apenas se a empresa é obrigada a reportar agora. A questão é se ela consegue demonstrar, com método e evidência, como sustentabilidade, clima e desempenho afetam seu valor.
A StraubJunqueira apoia empresas e empreendimentos que querem transformar certificação sustentável, desempenho, governança e evidência técnica em valor real para o mercado imobiliário.