Construção sustentável e financiamento: o que ainda trava o setor

Construção sustentável e financiamento: o que ainda trava o avanço do setor

A construção sustentável já não é uma agenda distante do mercado. Ela aparece cada vez mais associada a risco climático, eficiência, operação, reputação, conforto, resiliência e valor de longo prazo dos ativos.

 

Mas existe uma diferença importante entre reconhecer a urgência do tema e transformar essa urgência em decisão financeira.

 

Esse é um dos pontos mais relevantes trazidos pela discussão recente em torno do Barômetro da Construção Sustentável 2026, da Saint-Gobain. O levantamento mostra que a construção sustentável e resiliente já é vista como prioridade, especialmente diante do aumento dos eventos climáticos extremos. 

 

No entanto, bancos e seguradoras ainda encontram dificuldade para incorporar adaptação climática, resiliência e desempenho sustentável em seus modelos de financiamento e seguro.

 

Para o mercado imobiliário, esse dado importa muito. Porque, se o capital não reconhece com clareza o valor de um ativo mais eficiente, resiliente e bem planejado, a transição da construção sustentável perde velocidade.

 

A construção sustentável já é prioridade, mas o valor econômico ainda precisa ser melhor demonstrado

No Brasil, a construção sustentável é vista como prioridade por uma parcela expressiva dos stakeholders e cidadãos. Esse dado mostra que o tema já entrou na agenda do setor.

 

O problema está em outro ponto: a percepção de valor econômico ainda é baixa.

 

Ou seja, o mercado reconhece que construir de forma mais sustentável é importante, mas ainda não consegue traduzir essa importância, de maneira consistente, em retorno financeiro, redução de risco, valorização do ativo ou melhores condições de crédito e seguro.

 

Esse descompasso é decisivo.

 

Na prática, muitas decisões continuam sendo tomadas com base no custo inicial da obra, sem considerar adequadamente o desempenho ao longo do tempo. O investimento em materiais mais eficientes, estratégias de resiliência, sistemas de menor consumo, soluções de conforto ambiental e gestão mais qualificada ainda pode ser lido como custo adicional, e não como proteção de valor.

 

Essa é uma leitura limitada.

 

Um empreendimento sustentável não deveria ser avaliado apenas pelo que custa para ser construído. Ele precisa ser analisado pelo que entrega durante sua vida útil.

 

O que bancos e seguradoras ainda têm dificuldade de enxergar

Bancos e seguradoras têm um papel decisivo na transformação do setor da construção.

 

Quando essas instituições incorporam risco climático, adaptação e resiliência em suas análises, elas ajudam a orientar o mercado. Projetos mais preparados tendem a acessar melhores condições, enquanto ativos mais vulneráveis passam a carregar riscos mais claros.

 

Mas essa lógica ainda não está plenamente consolidada.

 

A dificuldade está em transformar benefícios futuros em métricas financeiras objetivas. Diferentemente da redução de emissões de carbono, que já conta com metodologias mais conhecidas, os ganhos da resiliência climática costumam aparecer de forma menos direta.

 

Eles podem surgir como perdas evitadas, menor interrupção operacional, redução de sinistros, maior permanência de ocupantes, menor obsolescência, melhor desempenho energético, maior atratividade para investidores ou mais estabilidade ao longo do tempo.

 

Esses benefícios são reais. Mas, quando não são medidos, documentados e comunicados de forma adequada, eles perdem força na mesa de decisão.

 

O risco de olhar só para o custo inicial

No mercado imobiliário, olhar apenas para o custo inicial é uma forma curta de avaliar valor.

 

Um ativo pode parecer mais competitivo na planilha da obra e se mostrar mais caro na operação. Pode economizar em decisões de projeto e pagar essa conta depois, com maior consumo energético, desconforto térmico, baixa eficiência, custos de manutenção, dificuldade de adaptação climática ou perda de atratividade.

 

Esse ponto fica ainda mais relevante quando falamos de ativos corporativos, logísticos, residenciais de alto padrão, hotéis, hospitais e empreendimentos de uso misto.

 

Nessas tipologias, desempenho e experiência de uso pesam diretamente na percepção de valor.

 

O mercado já começa a entender que um edifício não é apenas um produto entregue. Ele é um ativo que precisa performar ao longo do tempo.

 

E performance, nesse contexto, envolve muito mais do que estética, localização ou padrão construtivo. Envolve operação, conforto, eficiência, resiliência, saúde, bem-estar, governança e capacidade de responder a exigências futuras.

 

Certificações sustentáveis ajudam a transformar intenção em evidência

É aqui que as certificações sustentáveis ganham relevância estratégica.

 

Elas ajudam o mercado a sair do discurso e entrar em uma lógica mais técnica. Em vez de tratar sustentabilidade como uma promessa ampla, a certificação organiza critérios, documentação, metas, evidências e verificação.

 

Para bancos, seguradoras, investidores e ocupantes, isso pode fazer diferença.

 

Um empreendimento certificado tende a comunicar melhor suas decisões de projeto, seus critérios de desempenho e sua aderência a parâmetros reconhecidos. Dependendo da certificação, essa análise pode envolver energia, água, materiais, resíduos, qualidade ambiental interna, conforto, operação, saúde dos ocupantes e inovação.

 

O ponto não é tratar a certificação como um selo final.O ponto é entendê-la como uma ferramenta de gestão.

 

Quando bem conduzida, ela ajuda a fazer perguntas melhores desde o início do projeto:

  • o ativo reduz riscos operacionais?
  • o desempenho previsto pode ser demonstrado?
  • as soluções aplicadas têm impacto mensurável?
  • o empreendimento está preparado para eventos climáticos mais frequentes?
  • a operação tende a ser mais eficiente?
  • o projeto responde melhor às demandas de investidores, usuários e reguladores?

 

Essas perguntas aproximam sustentabilidade de valor econômico. E essa aproximação é justamente o que ainda falta para a construção sustentável avançar com mais força.

 

Resiliência precisa entrar na leitura de risco dos ativos

A agenda climática mudou a forma como o mercado precisa olhar para imóveis.

 

Eventos extremos, ondas de calor, enchentes, escassez hídrica e pressão sobre infraestrutura urbana já não são temas externos ao empreendimento. Eles afetam operação, continuidade, custo, segurança, conforto e valorização.

 

Por isso, resiliência não pode ser tratada como atributo complementar. Ela precisa entrar na análise de risco do ativo.

 

Quando bancos e seguradoras começam a avaliar melhor essa dimensão, o mercado tende a responder. Projetos mais preparados ganham vantagem. Ativos vulneráveis ficam mais expostos. E decisões de projeto passam a incorporar, com mais seriedade, fatores que antes pareciam distantes da conta financeira.

 

Essa mudança é especialmente importante no Brasil, onde as condições climáticas, urbanas e sociais tornam a discussão ainda mais urgente.

 

Se a construção sustentável é percebida como prioridade, o próximo passo é mostrar com mais clareza o que ela evita, o que ela protege e o que ela entrega de valor ao longo do tempo.

 

O papel do mercado imobiliário nessa virada

O setor financeiro precisa avançar, mas o mercado imobiliário também tem responsabilidade nessa mudança.

 

Incorporadoras, construtoras, proprietários e gestores de ativos precisam produzir informações melhores. Não basta afirmar que um empreendimento é sustentável. É preciso demonstrar desempenho, organizar dados, medir resultados e comunicar valor de forma objetiva.

 

Isso exige método. Exige também uma mudança de mentalidade.

 

A sustentabilidade não pode entrar apenas como argumento de marketing ou como resposta tardia a uma exigência de mercado. Ela precisa ser incorporada à estratégia do ativo desde as primeiras decisões: escolha do terreno, projeto, materiais, sistemas, obra, operação, manutenção e eventual retrofit.

 

Quando essa lógica entra cedo, o empreendimento ganha mais consistência. Quando entra tarde, vira tentativa de adequação.

 

Construção sustentável precisa ser lida como valor, não como custo

A discussão sobre bancos, seguradoras e construção sustentável revela um ponto central: o setor já sabe que precisa mudar, mas ainda precisa melhorar a forma como comprova valor.

 

Enquanto os benefícios da sustentabilidade forem tratados como ganhos difusos, difíceis de medir ou distantes da decisão financeira, o avanço continuará mais lento do que deveria.

 

Mas quando desempenho, resiliência, operação e certificações sustentáveis passam a ser traduzidos em evidência, o mercado começa a enxergar melhor a relação entre sustentabilidade e valor do ativo.

 

Esse é o movimento que tende a separar projetos preparados de projetos apenas bem-intencionados.

 

A construção sustentável não é uma camada extra da obra.

 

Ela é uma forma mais madura de projetar, construir, operar e proteger valor em um mercado cada vez mais exposto a riscos climáticos, financeiros e reputacionais.

 

A StraubJunqueira apoia empresas e empreendimentos que querem transformar certificação sustentável, desempenho e resiliência em valor real para o mercado imobiliário.

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